Auschwitz e Birkenau: O memorial para nunca esquecermos o horror do nazismo

Conforme explicamos no post sobre a Cracóvia, o Museu e Memorial de Auschwitz e Birkenau,está localizado na cidade de Oswiecim. Foi aberto em 1947 após a mobilização de  ex-prisioneiros do campo com o intuito de preservar o espaço em memória daqueles que foram exterminados, e para que aquele horror fosse melhor compreendido pelo mundo e jamais esquecido ou reproduzido. É uma oportunidade fundamental para os que visitam a cidade polonesa e desejam compreender uma mínima fração do horror do nazismo.

A visitação é um tema extremamente controverso, tendo em vista todas as atrocidades que ali ocorreram. É inegável que o ar é pesado e algumas imagens certamente ficarão marcadas na sua memória para sempre. Contudo, se o respeito for mantido desde o início, entendendo que a visita deve honrar a vontade de seus fundadores, não haverá historiador mais especializado nessa barbárie que não voltará com uma compreensão diferenciada e horrorizada do assunto, pois nenhuma foto, filme ou documentário poderia reproduzir o que os seus cinco sentidos captarão no local.

Dessa forma, se optar por ir, nunca se esqueça das quase 1 milhão de vítimas de Auschwitz – o número é incerto – nos pouco mais de 4 anos e meio de funcionamento, muitos inocentes foram exterminados nas câmaras de gás ainda na chegada e outros vítimas de atrocidades, experiências, doenças e inanição. As nacionalidades são diversas, englobando diversos países da Europa, mas em sua maioria judeus húngaros e poloneses.

Como chegar e como comprar ingressos? Existem duas alternativas:

  • Agências de turismo: diferentes  empresas no centro da Cracóvia oferecerem a visita com o transporte incluído. Tendo em vista que não é tão perto ou simples o deslocamento, pode ser mais prático, sobretudo em alta temporada.
  • Meios próprios: foi o que fizemos.
    • Compra de ingressos: extremamente simples pelo site oficial, mas é importante se planejar com antecedência, sobretudo em períodos de alta temporada, quando a disponibilidade é menor. Os ingressos são também vendidos no próprio museu, mas há o risco de indisponibilidade para o idioma ou tour desejado.
    • Translado até o museu:
      • Carro: se já estiver de carro, é simples e o museu conta com estacionamento. São 75 km pela A4 e DW933.
      • Ônibus: foi o que fizemos. Partida da rodoviária atrás da estação de trem ao lado do centro histórico da Cracóvia. A empresa Lajkonik faz o trajeto, com uma a duas saídas a cada hora entre 6h e 20h e os bilhetes podem ser comprados diretamente com o motorista ou no site oficial. Sobretudo na alta temporada, o horário desejado pode não estar disponível.
        Lemos alguns relatos de que mesmo comprando com antecedência, o bilhete não foi respeitado, principalmente na volta, quando o número de turistas para uma mesma saída é maior, já que diversos tours terminam na janela entre um ônibus e outro. Como fomos no final da tarde, não tivemos qualquer dificuldade.
      • Trem: os horários são mais restritos e a estação fica a 2 km de Auschwitz, trajeto que pode ser feito de ônibus, táxi ou a pé. Não recomendamos!

É obrigatória a visitação com o guia? Não é obrigatória. No entanto, a visitação se torna muito mais completa com curiosidades e informações cruciais fornecidas pelo guia. Além disso, após o término do tour guiado, é possível permanecer no campo para retornar aonde desejar.

Quanto tempo dura a visitação? Se optar pela visitação guiada tradicional, entre 3 horas e 3 horas e meia contemplando os dois campos – Auschwitz e Birkenau -, com deslocamento entre eles por um ônibus gratuito do próprio museu. Existe, ainda, a possibilidade do tour guiado de um dia (6 horas de duração) ou a visitação sem guia. O idioma do tour é predeterminado na compra do ingresso, refletindo no horário de saída do mesmo.

Qual o melhor horário para visitação? Fomos no final do dia e, como esperado, existem menos turistas, o que facilita o deslocamento por meios próprios e torna o local menos tumultuado. Caso esteja com alguma agência e em alta temporada, acreditamos que seja o melhor momento. No entanto, se for por meios próprios ou em baixa temporada, seria melhor ir bem cedo para ter a flexibilidade, caso deseje, de permanecer no museu após o término da visita guiada sem se preocupar com os horários do ônibus de retorno e, ao retornar para a Cracóvia, ter o resto do tempo para a cidade, sem um horário limite para ir ao museu, o que aconteceria se fosse a tarde.

Algumas orientações simples
Como dissemos, é um local de máximo respeito. Portanto, mesmo em épocas de calor, utilize roupas adequadas ao ambiente. Além disso, evite levar crianças muito pequenas que não possam compreender a seriedade que Auschwitz demanda, não fale alto ou faça brincadeiras. Há uma lanchonete e restaurante na área externa do museu.

A Visitação
A primeira e maior parte do tour ocorre em Auschwitz I, antiga base militar polonesa, transformada pelos nazistas em 1940 em um campo de concentração, uma vez que as prisões não mais comportavam os poloneses presos. No local permaneciam cerca de 15 a 20 mil prisioneiros.

Auschwitz - Cracovia - PoloniaEntrada de Auschwitz I, com a frase em alemão “Arbeit Macht Frei” – o trabalho liberta

A comunicação com o meio externo era totalmente impedida e os blocos eram cercados por inúmeras cercas, torres de observação e muros, dificultando qualquer fuga. Aqueles que desobedeciam as regras eram arbitrariamente punidos com enforcamento ou enviados ao bloco 11, onde eram torturados e exterminados. Além disso, muitos foram submetidos a experimentos médicos atrozes, cujos registros foram destruídos em sua maioria.

Auschwitz - Cracovia - PoloniaAuschwitz I – Cercas

Auschwitz - Cracovia - PoloniaAuschwitz I – Cercas

Auschwitz - Cracovia - PoloniaAuschwitz I – Enforcamento

Auschwitz - Cracovia - PoloniaAuschwitz I – Bloco 11, onde os prisioneiros eram torturados e exterminados

Uma das áreas mais horripilantes e marcantes do memorial foi a exposição dos utensílios pessoais. Um detalhe simples, mas que revelado em conjunto fornece uma dimensão da perda de individualidade dos prisioneiros e do seu número, como os sapatos.

Auschwitz - Cracovia - PoloniaSapatos dos prisioneiros

Além disso, todos os bens acumulados ao longo de uma vida eram reduzidos a uma pequena mala trazida pelos prisioneiros, que era confiscada na entrada sob a promessa mentirosa da devolução na saída e, portanto, possuíam as informações de seus donos no exterior. Promessas maldosas para dar esperança a indivíduos que viveriam, em média, apenas alguns meses depois de sua chegada.

Auschwitz - Cracovia - PoloniaMalas

Contudo, a área mais chocante, que em respeito não pode ser fotografada, é a dos cabelos dos prisioneiros. Alegando melhora da higiene, todos eram obrigados a cortar os cabelos. No entanto, os fios eram usados para tecer cobertores, por exemplo. Acreditamos que esse seja um dos fatos que melhor represente como aquelas pessoas eram despidas de qualquer individualidade e transformadas em meros objetos sem qualquer valor ou fim.

Em 1941 o espaço foi expandido, com a construção de Auschwitz II, também conhecido como Birkenau, localizado a alguns quilômetros do primeiro e onde permaneciam, em um mesmo momento, mais de 100 mil prisioneiros.  A linha férrea foi adaptada para levar os prisioneiros diretamente para dentro dos campos. Tendo em vista que não foi uma modificação de uma base preexistente que tinha outros fins no período pré-guerra, a estrutura das barracas era muito mais precária, com condições higiênico-sanitárias ainda mais deploráveis.

Auschwitz - Cracovia - PoloniaEntrada de Auschwitz II (Birkenau)

Auschwitz - Cracovia - PoloniaInterior de Auschwitz II (Birkenau)

Auschwitz - Cracovia - PoloniaVagões que traziam os prisioneiros – muitos chegavam mortos pela longa e desumana viagem

Auschwitz - Cracovia - PoloniaInterior de um dos galpões, onde os prisioneiros dormiam amontoados, muitos diretamente no chão

Em 1942, o complexo transformou-se em um campo de extermínio, com a construção das câmaras de gás, localizadas no fundo do campo, sob forte proteção por cercas eletrificadas. A maior parte das execuções ocorreu em Birkenau, onde, na chegada, muitos eram enviados diretamente para serem exterminados, usando a “desculpa” de que tomariam um banho antes de serem direcionados às barracas.

Os prisioneiros desciam, removiam suas vestes sob orientação de lembrar do local onde penduraram suas roupas para vestirem na saída (a maldade era inacreditável!) e eram encaminhados à câmara propriamente dita, que continha bocais falsos, semelhantes a um chuveiro no teto. As luzes eram desligadas e o gás Zyklon B era liberado, exterminando todos. Os corpos eram, então, cremados. Antes da libertação, os alemães destruíram qualquer registro das câmaras, além de terem exterminado testemunhas e implodido as câmaras de Birkenau.

Auschwitz - Cracovia - PoloniaRuínas das câmaras de gás em Birkenau

Auschwitz - Cracovia - PoloniaCâmara de gás em Auschwitz I

Auschwitz - Cracovia - PoloniaCrematório em Auschwitz I

Auschwitz - Cracovia - PoloniaLatas do gás Zyklon B

No final da visita à Birkenau, é possível subir na antiga área administrativa, de onde observa-se o tamanho do campo de concentração. Embora muitas barracas já não estejam mais de pé, os resquícios da fundação e as chaminés deixam clara a magnitude do local.

Auschwitz - Cracovia - Polonia

Após essa experiência chocante, embora já tivéssemos lido bastante sobre o nazismo e visitado diferentes museus poucos dias antes sobre o genocídio russo e nazista, retornamos para a Cracóvia mais horrorizados do que acreditávamos ser possível, refletindo sobre o quanto o ser humano pode cometer atrocidades com o outro.

Thiago Carvalho

Carioca, casado, 31 anos, médico, amante da natureza e apaixonado por viagem, de Itaipava no fim de semana ao Bungee Jumping na Nova Zelândia. Volta de uma viagem com o roteiro pronto para a próxima.

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